Carlos Mendes, 42 anos, para o caminhão no acostamento da Avenida Interlagos às 3h da madrugada. As mãos tremem no volante, o coração dispara sem razão aparente e a visão embaça por segundos que parecem eternos. Ele tomou dois comprimidos de um ‘remédio para cansaço’ que um colega indicou há três meses — hoje, não consegue mais dirigir sem eles. A Cidade Dutra dorme lá embaixo, indiferente, enquanto ele percebe que a automedicação virou uma armadilha silenciosa.
Você já se pegou tomando o terceiro energético da noite só para manter os olhos abertos no Terminal Varginha, sentindo o coração acelerado e as mãos trêmulas, mas sem conseguir parar?
A rotina noturna em um dos maiores terminais de ônibus de São Paulo impõe exigências físicas e mentais que levam muitos trabalhadores a buscar sustento químico para a vigília. O que começa como uma solução pontual — uma lata de energético, um comprimido para “aguentar o tranco” — pode evoluir silenciosamente para uma dependência que compromete a saúde, a segurança no trabalho e a vida pessoal.
Dados do Observatório Nacional de Segurança Viária revelam que a região sul de São Paulo, onde se situa o Jardim Orion, concentra índices de acidentes com vítimas fatais 27% acima da média municipal, e o álcool figura como fator contribuinte em quase 40% desses casos. O trajeto diário de moradores que cruzam a Avenida Atlântica, a Estrada do M’Boi Mirim e os acessos à Marginal Pinheiros expõe motoristas a congestionamentos crônicos, sinalização deficiente e longas esperas sob sol ou chuva. Esse cenário não é apenas um incômodo logístico: ele atua como gatilho neurobiológico potente, ativando circuitos de estresse que, em indivíduos vulneráveis, disparam a busca automática por substâncias psicoativas — sobretudo o álcool, pela disponibilidade e aceitação social.
O termômetro marca 36 graus às 10 da manhã no bairro do Socorro, zona sul de São Paulo. Dentro da cabine do caminhão, a sensação passa de 42. O asfalto irradia calor, o ar-condicionado luta contra a física e o motorista João, 42 anos, sente as pálpebras pesarem pela terceira vez desde que saiu da garagem. A entrega tem hora marcada. O chefe cobra pontualidade. No porta-luvas, uma cartela de comprimidos que “dão energia” — presente de um colega que “também roda o dia todo”. A mão hesita, mas a pressão vence.
Você já se pegou tomando o terceiro energético da madrugada, sentindo o coração disparado, só para conseguir terminar a rota e voltar para casa? A rotina de motorista em São Paulo não perdoa: margens apertadas, trânsito imprevisível, pressão por metas e a sensação constante de que o corpo não acompanha a exigência. Nesse cenário, o uso de estimulantes deixa de ser ‘uma ajuda pontual’ e vira uma armadilha silenciosa que compromete a saúde, a segurança no trânsito e a própria capacidade de trabalhar.
Vários jovens de 15 a 17 anos chegam à clínica de tratamento de dependência química em um estado de perplexidade e desespero. Entre eles, um grupo de amigos que nunca imaginou que o convívio com drogas seria tão fácil e tão arrasador. Seus pais, por sua vez, expressam a mesma confusão. Eles sempre acreditaram que a dependência química era um problema de pessoas que já tinham um histórico familiar ou pessoal de uso de drogas, ou que a vítima não tinha força de vontade para se manter longe delas. No entanto, a realidade é muito diferente. A verdade é que a dependência química pode atingir qualquer pessoa, em qualquer idade, e em qualquer classe social. A chave para entender como lidar com isso é a educação familiar.